U m    l i v r o    e s t á    s e n d o    e s c r i t o    p a r a    q u e m    n ã o    s a b e    l e r
10.1.05
 
Ficção:
Paredes brancas e encontros de letras


"Ele tentava entender por que os muros estavam sem cor, quando uma
menina usando óculos de lentes grossas ofereceu a ele um par igual..."


DIANA PELLEGRINI para o ABCidadania, em janeiro de 2005

Ele abre os olhos e vê que as paredes do quarto estão brancas. Não há mais a folhinha, o quadro de Jesus com o Sagrado Coração, o retrato da formatura do neto; nem mais as manchas de umidade, os pedaços de massa corrida descascada e aquele furo de um prego que caiu. Olhando melhor, ele vê que também os armários, a cama, a porta e a janela perderam a cor. "Que diabos", ele pensa. Precisa acordar, precisa ir ao trabalho, e acontece uma coisa dessas àquela hora da manhã.

Já começa a amanhecer: seu quarto — subitamente branco — está na penumbra. "Se o sol já está saindo, é porque eu perdi a hora." Vai olhar à janela para ter certeza, e percebe, chocado, que tudo lá fora também está branco. Os muros não têm cores e nenhuma mensagem pintada, a paisagem é uniforme e inexpressiva, o asfalto é branco a se perder de vista. Nenhum sinal sobre as superfícies imaculadas.

De repente, uma guitarra escandalosa começa a tocar. Ele ainda se lembra de ter pensado: "Essa agora. Ainda bem que está baixinho. Música de doido". Mas a guitarra fica cada vez mais alta, mais perto dos seus ouvidos. Até fazê-lo acordar do sonho das paredes brancas.

"Ah, bom." Seu quarto é o mesmo de sempre, sua colcha continua com os retalhos coloridos, seus quadros estão todos no lugar. O neto, na foto, sorri para ele, como se achasse engraçado usar aquele chapéu diferente na cabeça. Ontem o garoto tinha ajustado o despertador para as 4 horas. Era ele quem gostava daquela música louca. Qual era o botão que ele tinha que apertar para acabar com aquela barulheira? O neto já tinha lhe ensinado. Ah, sim: o botão maior. Pronto.

Quando voltasse, tinha que pedir para o neto trocar aquela estação de rádio. E podia até perguntar a ele como era mesmo que se escrevia o 4. É, por que não. Um dia ele podia querer ajustar sozinho o despertador.

O BANHO, o uniforme azul do serviço, o café forte e o pão, a marmita; e o caminho até o ponto de ônibus. Quase todo dia, quando ele abre a porta de casa, passa ao mesmo tempo o moço na kombi bege e joga dois jornais no quintal do vizinho. Aquele vizinho é professor na escolinha lá de baixo. Homem muito estudado. Ele sabe das coisas que acontecem na prefeitura, na capital, nos outros países.

"Bom dia, seu Moisés!"

"Bom dia."

"Senhor já viu isto aqui? Cento e cinqüenta mil mortos, lá na Ásia!"

"É, eu vi na tevê. Furacão brabo. Foi um furacão, né, um troço assim."

"Foi um tsunami, seu Moisés! Um tsunami!"

Podia até perguntar ao
neto como se escrevia
o 4. Um dia ele podia
querer ajustar sozinho
o despertador.
Sunâmi. Não podia esquecer da palavra. Quando voltasse, tinha que perguntar para o neto o que era aquilo. Então não foi um terremoto, um furacão, uma enchente, um troço desses? Ora bolas, passou a enchente na televisão, ele viu a água... E agora ele não sabia mais como era aquela palavra nova. Também, complicada demais para se lembrar.

O nome do ônibus, pelo menos, era fácil. Ele também tinha aprendido a ver com que letra começava. Aquela que era torcidinha, parecendo duas curvas de estrada, uma para cada lado. Tinha duas daquelas no seu nome. Das outras, ele já tinha esquecido. Não desenhava mais o nome fazia tempo.

Algum dia tinha que perguntar aos netos como era mesmo que se desenhava seu nome. Ele tinha conseguido estudar os dois, e os dois agora sabiam de tudo. A mais nova, um dia, chegou em casa ensinando o que tinha aprendido na escola. "Vô, tem um ditongo no seu nome." Ele teve medo de que aquilo fosse alguma coisa ruim; fez uma voz meio assustada, meio brava:

"Quê, menina."

"Um ditongo, vô. Um encontro de vogais."

Ah. Se era um encontro, talvez fosse bom. Ele também sonhava em se encontrar, algum dia, nas letras do seu próprio nome.

O ônibus começava com
aquela letra torcidinha.
Tinha duas daquelas no
seu nome. Das outras,
ele já tinha esquecido.
SEM DISTRAÇÃO agora. O que ele precisa encontrar, por enquanto, é a condução certa para chegar ao trabalho. Tarefa difícil, exige concentração — apesar de parecer coisa simples para aquela mocinha que admira, distraída, o rapaz boa-pinta da revista que ela traz na mão. Ela levanta os olhos de vez em quando, mira o ônibus por menos de um segundo, volta a olhar a revista. Passam três, quatro carros. Vem o quinto, a mocinha o vê, ainda não é sua linha; uma outra senhora faz o sinal.

O ônibus se aproxima devagar, e ele se esforça para reconhecer o desenho do letreiro. Mas a droga das vistas, cada dia demora mais para ele descobrir se é o seu ônibus que vem vindo. Parece que a letra curvinha está lá. Ah, e ele tem a impressão de já ter visto aquele motorista. Dá uma corrida ligeira até a porta, sobe no carro meio esbaforido, meio desconfiado. Só fica tranqüilo quando tem a certeza de reconhecer o trajeto.

"Quer que segure a bolsa?"

A moça que pergunta lê um livro de escrita miudinha. "Precisa não, tá levinha." Vendo as páginas de cima, de longe, e com os solavancos do ônibus, as linhas parecem grossos riscos horizontais, fazendo curvas e pontinhas para baixo e para cima. "Mas brigado, viu, moça." Como ela entende aquilo? Deve ser por isso que precisa usar esses óculos grossos feito fundo de garrafa.

A moça se levanta e dá sinal para descer, e ele senta no lugar vazio. Os solavancos o embalam, não dá para resistir ao cochilo. Por alguns instantes ele estava de novo no asfalto todo branco, tentando entender por que todos os muros estavam sem cor; e uma garotinha puxava a barra do seu uniforme azul. "Tenta isto aqui." Ela usava um par de óculos de lentes grossíssimas, e oferecia a ele um par igual. "Eu estou usando e já tou vendo tudo." Na dúvida em pegar ou não aqueles óculos tão feios, ele deu um pulo.

Assim como os outros,
ele gostava de olhar os
cartazes com atenção
até o elevador chegar.
O solavanco forte o despertou. Já estava na avenida Paulista. Gostava de trabalhar naquela região moderna, agitada, vendo as pistas largas e os painéis altos com fotografias e cores e luzes piscando. Os grandes cartazes da Paulista mostravam de tudo: tinham homens sérios, famílias felizes, mulherões de biquíni, carros bonitos, comidas gostosas, lugares agradáveis. Parecia que ele olhava tudo o que o mundo tinha de bonito. Ele olhava o mundo inteiro e o compreendia, e se sentia bem reconhecendo tudo aquilo. Era o contrário do seu pesadelo branco.

O EMPREGO tinha sido difícil no começo, mas agora era só rotina. Sempre as mesmas coisas, toda manhã, ao entrar no prédio: a carteirinha com a sua foto passava na roleta, o elevador demorava um pouco para descer e a cada dia tinha um cartaz novo no mural do saguão de entrada. Assim como os outros, ele também gostava de olhar os cartazes com atenção, por longos minutos, admirando os desenhos e as fotografias até o elevador chegar. Então ele entrava, apertava o penúltimo botão da fileira e subia até o segundo andar, para bater o ponto antes das 7 da manhã.

O começo do dia era a parte mais dura do trabalho. Limpar os corredores e os banheiros, sem muito descanso, até a hora do almoço. Nas primeiras semanas também tinha sido complicado aprender qual era o vidro do desinfetante, qual era o da cera e qual era o do cloro. Fora alguns dias que ele passou confundindo os banheiros femininos com os masculinos.

Quem ajudou bastante foi a Miriam, a mocinha alegre que já trabalhava na firma de limpeza bem antes de ele começar. Ela era esperta, e até quando não sabia alguma coisa ela podia aprender na hora. Por isso era que, quando o setor das compras trocava as marcas dos produtos e ele não conhecia os vidros novos, ele precisava da ajuda dela para saber qual usar.

Ia vir uma República
nova e ele não sabia?
Mas se ela fosse
importante já tinha
dado no jornal das oito
.
Ele estava pensando na Miriam enquanto procurava o vidro do Pinho Sol no armário. Ela ainda não tinha chegado. E cadê o Pinho Sol. Será que tinha pegado trânsito? Pinho Sol, Pinho Sol, Pinho Sol. A Miriam morava longe. E vivia meio cansada, porque, além de trabalhar, também estudava. Saía antes de todo mundo, correndo, para ainda pegar metrô e trem, tomar um banho rápido em casa e ir para a escola sem jantar. Isso ela não contava para todo mundo: contara só para ele, uma vez faz tempo, quando ele perguntou onde ela estudava. Onde, aqui não está. Ela fazia a 3ª série, dizia que ia estudar até o fim. Ontem estava aqui embaixo, que diabos, quem mexeu no Pinho Sol.

Ele grita pelo colega. "Ô Jair, cê pegou o vidro que eu deixei aqui ontem?"

Quer saber, deixa o banheiro pra depois; melhor varrer primeiro o corredor. Ele lembra que não devia ter gritado: a aula já começou e os alunos precisam de silêncio para aprender direito.

UM PROFESSOR o chama enquanto ele recolhe o lixo. "Seu Moisés, me faz um favor? Avisa o bedel que eu vou precisar da televisão mais cedo. Vou falar da Nova República logo depois do intervalo, aí vou usar a tevê. Tá bom?"

"Pra levar a tevê pro senhor depois do intervalo, né? Pode deixar, eu aviso ele."

A nova República, era isso mesmo que o professor tinha dito. Ia vir uma República nova, e ele não sabia? Ou será que já tinha acontecido? Não: aí já ia ser velha. Melhor ir logo avisar o bedel. E, se essa nova República fosse importante, já tinha dado no jornal das oito.

Nesse jornal das oito ele tinha visto o rosto de um aluno daquela faculdade. Os moços lá estudavam para ser jornalista. Pelo que ele sabia, o curso era caro; e no ano seguinte ia aumentar mais ainda. A escola também tinha outras profissões, mas ele gostava mesmo era do jornalismo — ainda mais depois que viu o rapaz na tevê. Era uma reportagem sobre o governo, sobre essas negociações da política. No dia seguinte ele tinha dado bom dia para o moço, e o moço respondeu com um sorriso.

"Ei. Você que tá atrás do desinfetante?"

"Ah, brigado. Viu, Jair: avisa o bedel pra trazer a tevê pra essa sala aqui, tá? O professor pediu."

Quando voltasse para casa, tinha que perguntar para o neto que história era aquela de República nova. Agora, já dava para limpar os banheiros.

Continua...



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