
U m l i v r o e s t á s e n d o e s c r i t o p a r a q u e m n ã o s a b e l e r
30.9.03
Reportagem:
Brasil tenta há décadas se alfabetizar
País tem histórico de projetos com resultados escassos, deixando mais de
17 milhões de analfabetos distantes do conhecimento e da atuação social
DIANA PELLEGRINI para a Faculdade Cásper Líbero, em setembro de 2003. Veja a primeira publicação
Esta aula é diferente das outras. A escola, que de manhã era barulhenta e movimentada, agora está quieta, escura. A sala parece grande demais para os cinco alunos — hoje são só quatro — que se sentam juntos, perto da parede. A professora não precisa da lousa: vai de mesa em mesa esclarecendo as dúvidas de cada um. E há muitas dúvidas. "É difícil guardar tudo na cabeça", diz, meio resignada, a aluna Jovelina dos Santos. Aliás, Dona Jovelina: ela tem 60 anos de idade. Nessa classe diferente, ela e seus colegas aprendem a ler e escrever.
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| Jovelina está entre 17 milhões de brasileiros que não lêem |
O educador Paulo Freire (1921-1997) foi o primeiro pedagogo a falar da alfabetização como instrumento de inclusão social. Mas quem sente na pele a diferença que faz saber ler e escrever já falava disso antes. Osmar Medeiros, por exemplo, outro aluno do Tucuruvi, conta que seu antigo patrão pagava o almoço aos empregados e, no fim do mês, descontava do salário o preço das refeições "oferecidas". "Tem empresa que aproveita do funcionário que não tem estudo", denuncia. Hoje empregado numa fábrica de tecidos, Osmar lamenta ter perdido uma oportunidade de subir de posto por não escrever direito.
Por causa de situações assim, representativas de uma realidade desigual e muito mais complexa, Paulo Freire via na ignorância uma opressão, e na alfabetização um processo de libertação. Quem dá testemunho disso é Lutgardes Freire, seu filho mais novo. Ele é um dos envolvidos no Instituto Paulo Freire, que sustenta projetos e estudos que dão continuidade ao legado do educador. "Meu pai não concebia a alfabetização sem um contexto político, sem uma conscientização", lembra.
"Conscientização" é a idéia central do método de alfabetização começado por Freire em 1961. O aluno deveria aprender com base na linguagem e no vocabulário de seu universo, e fazer uso do processo de aprendizado para discutir e problematizar sua própria vivência enquanto "oprimido", na visão do educador. Algo como dar o instrumento da escrita e, ao mesmo tempo, mostrar como e por que utilizá-lo.
MOBILIZAÇÃO — A eficiência do novo modo de ensinar impulsionou o Movimento de Educação Popular, primeira grande mobilização nacional para a alfabetização no Brasil, sob o governo do presidente João Goulart (1963-64). A meta de alfabetizar 2 milhões de pessoas em 1964 foi interrompida pelo advento do regime militar. Três anos depois, o mesmo regime criava o Movimento Brasileiro de Alfabetização — MOBRAL, que durou até o fim da ditadura, com muita burocracia e resultados escassos. Deixou 30 milhões de analfabetos para a Nova República. A próxima iniciativa só surgiu em 1997, com o Alfabetização Solidária, iniciativa do governo Fernando Henrique Cardoso que persiste até hoje, contando 3 milhões de pessoas alfabetizadas.
Tanto o MOBRAL quanto o Alfabetização Solidária sofrem a influência inegável de Paulo Freire. O programa da ditadura, apesar de não fazer questão nenhuma de lembrar o pedagogo então exilado, copiou as técnicas de seu método, baseado em palavras geradoras, decompostas em sílabas que originavam famílias silábicas (ba-be-bi-bo-bu, por exemplo) usadas para formar novas palavras. O suporte ideológico das duas práticas, porém, era claramente oposto.
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| Creusa entre os alunos do Tucuruvi: ela trocou construtivismo pela cartilha infantil |
Enquanto isso, no Tucuruvi, a professora de Osmar e Jovelina, Creusa Cardoso, nunca teve contato significativo com o método de Paulo Freire. Diz que experimentou práticas construtivistas, como o uso de embalagens, mas que não funcionavam. Alfabetiza adultos com o mesmo tipo de cartilha que usaria para as crianças a quem dava aula antes de se aposentar. Apesar de não dar um enfoque político à sua atividade, Creusa concorda que o analfabeto esteja mais sujeito à manipulação, e ressalta a importância social da alfabetização: "o funcionário que aprende a ler é um melhor funcionário, se sente mais importante, mais gente".
E há ainda os outros 17,6 milhões que continuam buscando a oportunidade de estudar. Eles estão na mira de um novo programa de alfabetização, o Brasil Alfabetizado, desta vez de responsabilidade do ministro da Educação do governo Lula, Cristovam Buarque. O Alfabetização Solidária será paralelamente mantido em funcionamento. "O Cristovam vai dar uma orientação política à alfabetização", acredita Lutgardes, que espera que desta vez o método de seu pai seja aplicado em sua essência. O programa do governo petista prometeu educar todos os iletrados do país em quatro anos.
O Brasil Alfabetizado já recebeu, através da Secretaria Extraordinária de Erradicação do Analfabetismo (SEEA/MEC), alguns projetos para aprovação — prefeituras, escolas, ONGs e organizações da sociedade civil podem mandar suas propostas para parcerias, que vão ser a base do funcionamento do programa, até dia 30 de junho. Já foram liberados R$ 80 milhões de uma verba total de R$ 271 milhões prevista para financiar projetos este ano. Além disso, o Ministério da Educação já fechou um acordo de patrocínio com o clube espanhol Real Madrid, o time de Ronaldo. E, antes de tudo, a idéia já conquistou a esperança de Lutgardes, o filho do mestre.
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